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Agulha e Linha

Minhas duas amadas avós eram costureiras: uma de profissão e outra por puro talento. Cresci em meio à agulhas e linhas, tesouras e tecidos. Passei inúmeras férias introduzindo linhas em buracos de agulha minúsculos, pregando botões, alinhavando panos de prato e lencinhos como treinamento e remendando meias como dever de casa. Chuleado, caseado, invisível, zigue-zague. Adotei o dedal como objeto preferido, achava que era feito para crianças. Minha mãe tecia tapetes e colchas incríveis, qualquer folguinha na rotina e ela corria pras agulhas de crochê. Meus tios foram donos de fábricas de roupas e eu simplesmente adorava passear pelo meio das costureiras catando restinhos de tecido pra fazer roupinhas de boneca. Essa convivência despertou em mim uma vontade de criar que nunca foi embora, me deu asas pra voar no mundo da imaginação.

A costura me parecia um mundo de possibilidades, que na infância julgava servir apenas para uma finalidade muito prática: roupas! Quando cresci, pude entender que se tratava mesmo de um universo, mas que ia muito além das roupas: a criatividade, ela sim, é a peça chave da engrenagem das costureiras. Depois, se transformou em terapia, e nos momentos difíceis sempre me pego bordando algum paninho. Ao me lembrar daquelas tardes que passava sentada ao pé da máquina da vó Anna, ou no quarto da vó Cacilda, costurando, ouvindo algumas histórias, contando outras, me sinto mais segura. Foram naqueles momentos quando descobri muito sobre a minha família e com isso pude traçar as primeiras linhas da minha identidade.

Já crescida, agora fotógrafa e historiadora da arte, resgato aquelas tardes no meu coração unindo o passado e o presente. Costurar papéis e fotografias gera em mim não apenas um sentimento de continuidade de uma tradição, mas me faz sentir mais completa e satisfeita como artista. Sem maiores explicações teóricas, simplesmente faz sentido. Sinto muita empatia pelas figuras costuradas, mesmo que desconhecidas, como se houvesse uma capacidade de compreensão emocional e estética mútuas entre os fotografados e eu durante o processo. Costurar é um ato emocional e algo me diz que um tanto místico também.

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